A disrupção da Apple

Quem veio ler esse texto esperando mais uma apologia à empresa criada por Steve Jobs enganou-se redondamente. O que você lerá nos próximos parágrafos é exatamente o oposto: a Apple provando do seu próprio remédio.

Nos seus primórdios, a Apple entendeu como ninguém o princípio da Inovação Disruptiva, tal como postulado por seu criador, Clayton Christensen:

– A maioria das empresas apenas melhora os produtos que já têm, aumentando um pouco a performance, assim como o preço. É a Inovação Incremental;

– Vez ou outra, um novo produto revoluciona o mercado, exatamente por atingir os não-consumidores, que são sempre em maior número do que os consumidores;

– Normalmente a inovação disruptiva alcança os não-consumidores por duas razões: os produtos anteriores eram muito complicados de serem usados ou muito caros.

Por isso, quando aparece um novo produto, com uma destas características, ele inicialmente é adotado por um nicho de mercado, no qual sua arquitetura mais simples encaixa-se perfeitamente, embora sua performance não se compare à do produto original. Mesmo assim, ela é suficiente.

A Apple fez isso com os microcomputadores, ao mirar no público doméstico, especialmente crianças, para as quais os PCs eram um brinquedo. Ao fincar pé neste segmento, Steve Jobs conseguiu fôlego para desenvolver um negócio que, com o tempo, foi subindo mercado acima, até o cenário que conhecemos hoje.

Com este movimento, a Apple amealhou seguidores fiéis que, ano após ano, passaram a consumir seus novos produtos como o supra sumo da inovação tecnológica.

Estou longe de ser um expert em tecnologia mas, mesmo correndo o risco de escrever besteira, arrisco-me a dizer que applemaníacos gastam muito dinheiro por nada. O que pagam a mais pelos Macs, por exemplo, não se justifica mais em termos de desempenho.

Tudo o que está dentro do iPhone já existia no mercado. O iPad não foi o primeiro tablet, nem o iPod o precursor dos mp3 players. Há tempos Steve Jobs vende design e life style. Não há dúvidas que seus produtos são lindos e parecem altamente inovadores. Ao menos por algum tempo. E essa é a chave da questão.

Inovação, da forma como conhecemos hoje, está virando commodity, por mais absurdo que esta afirmação possa parecer. Mas hoje a Toyota lança um modelo de luxo, com vários acessórios novos e, em poucos meses, a Hyundai tem um automóvel igualzinho.

Quantos smartphones com touchscreen surgiram logo após o iPhone? E quantos tablets depois do iPad?

Certamente  que a Apple posiciona muito bem seus produtos – assim como seus preços e, consequentemente, sua fabulosa margem de lucro. Mas em tempos de engenharia reversa e fabricantes chineses, este elixir pode transformar-se em amargo remédio.

Assim como a outrora disruptiva Toyota abalou o mercado americano de automóveis, ela agora é sacudida pela Hyundai. Pois agora é a vez da Apple.

Com a chegada do Kindle Fire ao mercado, a Amazon tem tudo para desbancar a Apple e seu iPad. O conceito de Jeff Bezos parece uma receita de um dos livros de Christensen: mais simples, menos funcionalidades e, last, but not least, 1/3 do preço! O design da Apple nunca foi tão caro.

Está dito, em todas as letras, no site da Amazon: “There are two types of companies: those that work hard to charge customers more, and those that work hard to charge customers less. Both approaches can work. We are firmly in the second camp.”

Assina Jeff Bezos, CEO da empresa. Recado dado.

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