Comendo com os olhos

Pouca gente sabe, mas venho de uma família de exímios cozinheiros. Meu avô materno comandou seu próprio restaurante por décadas. Meus tios herdaram seus dons, para alegria dos convidados de suas frequentes comemorações. Já eu não passo vergonha, tampouco fome.

Mas o que isso tem a ver com Administração? Muita coisa! Assista um episódio de Kitchen Nightmares e imediatamente você verá o link entre gastronomia e gestão.

Em seu reality show, o multipremiado chef inglês Gordon Ramsay tem uma semana para reverter a situação de um restaurante à beira do abismo. A fórmula se repete sem se desgastar: um ambiente antiquado, péssima comida, atendimento sofrível e o proprietário que insiste em enxergar um mar de rosas onde existe um pântano fétido.

Como em muitos ambientes precisando de mudanças urgentes, os responsáveis vivem um estado de completa negação e desculpas, recusando-se a admitir qualquer descompasso entre o que eles oferecem e o que seus (últimos) clientes buscam.

Prato feito para as críticas nada delicadas de Ramsay, que não tem vergonha nem pena de cospir a comida na frente de quem a prepara. Exageros do show business, mas que atingem o necessário objetivo: tirar uma equipe sonolenta da beira do abismo.

Embora seja comandada por um astro da culinária, Kitchen Nightmares pouco fala de receitas ou dicas para cortar cebolas sem chorar. As lágrimas, que não são poucas, normalmente brotam do desespero de quem flerta com a falência ou, com mais frequência, dos momentos em que estas pessoas finalmente caem na real.

E Ramsay tem uma receita infalível para o necessário choque de realidade: imagens marcantes que simbolizam de forma categórica o tamanho do problema, ou a beleza da solução. Neste sentido, o chef costuma atingir o nervo de forma primorosa, transmitindo visualmente o que seus visitados não entendem verbalmente.

No exemplo abaixo, Ramsay debate-se com Michael, o preguiçoso herdeiro de um restaurante italiano de Nova Jersey (o Leone's), que se recusa a acreditar que a comida de seu restaurante é ruim. Na criativa demonstração, Michael percebe, admirado, que o que seu restaurante serve não tem só o gosto ruim: a aparência também é horrível!

Como escreve John Kotter em The Heart of Change, as grandes mudanças ocorrem motivadas mais pela emoção do que pela razão. E nada melhor para provocar fortes emoções do que imagens marcantes.

1 pensamento em “Comendo com os olhos”

  1. É incrível a dificuldade que temos em identificar as falhas internas do processo, principalmente quando estamos envolvidos emocionalmente. Mas, o mais fascinante, é a forma simples encontrada para abrir os olhos dos proprietários …

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