Imagine: How Creativity Works - Jonah Lehrer
ATENÇÃO: depois da publicação deste texto, erros graves foram encontrados no livro levando, inclusive, ao seu recolhimento pela editora. Leia mais sobre o caso aqui: Traído pela ambição.
A moderna literatura corporativa está repleta de livros sobre Inovação e Empreendedorismo, dois conceitos intimamente ligados por seus elementos fundamentais: Criação e Execução. Muito já se escreveu, também, sobre o segundo elemento, mas quase nada sobre o primeiro. O pouco que há, ainda assim, trata o tema de forma meio mágica, mitológica, transcendental.
Não é este o caso de Imagine: How Creativity Works (Houghton Mifflin Harcourt, 2012), no qual Jonah Lehrer oferece uma visão um tanto científica sobre Criatividade. Ciências, aliás, é a praia de Lehrer*, um jornalista especializado em traduzir jargões acadêmicos para um formato adequado a nós, leigos.
O livro reúne algumas das mais recentes descobertas acerca do processo criativo, muitas das quais, aliás, contradizem o que até agora tínhamos como verdade. Para tanto, o autor divide o livro em duas partes: na primeira ele aborda aspectos individuais da criatividade, enquanto que a segunda é dedicada às criações coletivas.
A mais impotante contribuição de Imagine talvez esteja na diferenciação entre os estágios do processo criativo e que tipo de habilidade é desejável em cada um.
De um lado, temos a briga direta com o problema que tentamos resolver. Uma luta que, segundo Lehrer, só vencemos quando já estamos quase a ponto de desistir - algo que os livros que romantizam o processo criativo convenientemente costumam esquecer.
Nesta fase, a mente precisa divagar pelo caótico repositório de informações armazenado na memória, buscando associar ideias e conceitos aparentemente distantes e desconexos.
Três elementos são fundamentais para isto: um vasto repertório (em O Iconoclasta, o neurocientista Gregory Berns defende que pessoas criativas têm uma percepção diferenciada), uma mente capaz de afastar-se do pensamento convencional e manter a ingenuidade do iniciante (qualquer semelhança com stay hungry, stay foolish não é coincidência).
Como esta tarefa requer pensamento divergente, livre e descompromissado, deve-se permanecer relaxado e distraído, até. Sono em dia (cochile!), sua música favorita e até um banho demorado ajudam a criar o clima propício ao surgimento das epifanias.
Depois do momento de insight, começa a parte da transpiração. Apesar de a ideia normalmente vir completa, ela ainda precisa ser lapidada, adaptada e, finalmente, posta em prática - do contrário, continuará a ser apenas uma ideia. Seria algo como pensar no tema para um artigo, ou a melodia para uma música (insight) e depois escrevê-lo de fato (transpiração).
Ao contrário da fase anterior, nesta o foco é fundamental. Aqui você pode usar e abusar do café e do Red Bull.
Já na área dos processos criativos coletivos, Lehrer desafia um modelo até hoje utilizado por muitas empresas: o brainstorming. Assim como ocorre com vários outros arraigados hábitos corporativos, já há suficiente evidência científica sugerindo que a técnica, criada por Alex Osborne na década de 1940, não é a melhor forma de fazer as coisas (outro bom exemplo é a Motivação).
Diversos estudos, alguns realizados há mais de duas décadas, mostram que o brainstorming afunila o pensamento, convergindo para as primeiras ideias apresentadas, formando o que se convencionou chamar de groupthink.
Em processos coletivos, a discordância é necessária pois aprimora as ideias na medida em que elas vão surgindo. Estudos controlados mostraram que grupos trabalhando com um nível saudável de autocrítica produzem mais e melhores ideias do que aqueles em que se é obrigado a concordar com tudo (uma justifica simples para isto é que, se você não pode discordar, você simplesmente não presta atenção ao que o outro está dizendo).
Outro fator essencial ao sucesso criativo dos grupos é a diversidade de sua composição: quanto mais variadas as experiências, maiores as chances de combinar diferentes expertises na busca de soluções (lembre-se da importância do repertório, discutida acima). Em diversas áreas, soluções são encontradas por não-especialistas.
Um exemplo pitoresco, porém ilustrativo, é o do programador que virou barman. Por não ter a experiência (leia-se: vícios) dos veteranos, o amador criava drinks misturando ingredientes jamais imaginados - como bourbon e bacon, por exemplo. Sim, bacon.
São ousadias que somente os novatos buscam, por não terem compromissos com tradições nem temerem heresias. Compõem a necessária oxigenação de que toda companhia necessita, para inovar e brilhar em mercados cada vez mais exigentes.
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* Jonah Lehrer é editor associado da Wired e escreve também na New Yorker e Nature. Seus livros anteriores estão disponíveis no Brasil: Proust foi um neurocientista (2007) e O momento decisivo (2010).
É verdade, Alessandra. Ele se graduou em Neurociências e depois fez pós-graduação em Literatura, em Oxford (até pouco tempo eu achava que ele era inglês...).
Eu acho um tanto estranha esta formação em "neurociências", porque o cara não é médico, nem biólogo, nem qualquer coisa da área. Mas o bom é que ele consegue trazer temas técnicos e muito interessantes para nós, leigos.
Abraços, Rodolfo.
Enviado por: Rodolfo Araújo | 12/06/2012 at 03:28 PM
é verdade, Rodolfo! Ele é apenas doutor em neurociências. A atividade dele é escrever mesmo. ;)
Enviado por: Alessandra | 12/06/2012 at 09:48 AM
Leonardo, o "Proust" eu ainda não li, mas o outro eu recomendo sim.
Alessandra, o Lehrer não é neurocientista. Ele não participa de atividades acadêmicas - apenas escreve sobre elas.
Abraços, Rodolfo.
Enviado por: Rodolfo Araújo | 10/06/2012 at 11:28 PM
recomenda os livros anteriores? tem previsão desse sair em português?
Enviado por: Leonardo Zamboni | 10/06/2012 at 04:24 PM
Opa! Ainda não li este. Acho que a biografia mais acertada para o autor do livro é "neurocientista que se especializou em divulgação [ou popularização] científica". ;)
Enviado por: Alessandra | 10/06/2012 at 09:37 AM